terça-feira, 6 de janeiro de 2015



POBREZINHA!


o pássaro lhe dizia em sonho:

vou enfiar o bico afiado no teu peito estufado
vou furar este peito inflado
ajudar-te a te livrares do pecado

vou te fazer humilde
trazer-te ao chão
ao lado do teu irmão

verás a necessidade
a necessidade de estender a mão

se mesmo assim não ficares livre do teu ego
te levarei
para outro espaço
te puxarei pelo braço
e te mostrarei cenas do passado
...
e o pássaro das asas douradas sempre vinha com seu bico comprido
ele se aproximava de seu peito
ela se encolhia
se contorcia
gemia
...

ele era uma ameaça e a redenção
ela desejava pegá-lo
estendia a mão
ele voava em outra direção
e voltava
e ameaçava

(outro sonho)
talvez o mais temido
e o imprescindível

...
a manhã chegaria?
teria fim aquela agonia?
ela não sabia
mas pressentia
estava viajando
experimentando o encontro com a ave do bico ameaçador
mas não era a ave do amor?

acordar?
aquele sufoco acabar?

horas mais tarde a serviçal abriu a porta
e a encontrou morta
morta!

...
mas como aconteceu?
os comentários
vários, vários
como foi que ela morreu?

morreu dormindo, a pobrezinha!
não saberiam jamais que foi uma avezinha
a ave redentora

no último instante ela havia compreendido
era a ave da salvação

sonia delsin 


OUTRA OCASIÃO...

Embalei pra ti meu coração
Ele não foi em papel celofane 
Nem papel de seda
Papel colorido?
Estampado?
Não, meu amado
Foi simplesmente embrulhado
num velho papel de pão
E recusastes
Desejavas sofisticação?
Acovardavas-te diante da situação?
Sei não, sei não
Querias talvez esperar outra ocasião...


sonia delsin 


INSTANTE MORTO

Tremulam as estrelas no meu céu
Tremulam as folhas no parque
Revivo cenas
Revejo tuas mãos... trêmulas
Teus lábios... trêmulos
Teu corpo... trêmulo
Sinto o instante morto
O teu tremor
Pensei que pudesse ser amor
E era?
Talvez fosse
Não sei ao certo
Não sei
Não tem mais importância

sonia delsin


SUPETÃO

Matei em mim o tempo de esperar
Matei
Matei a sede
E a fome que eu sentia de me completar
Era uma angústia te procurar
Era o inverso do que o tempo vinha me ofertar
Não fui entendendo aos poucos
Compreendi de supetão
Quase me explodiu o coração tanta sensação

sonia delsin 


CORAÇÃO DE AÇO

Tantas vezes me surpreendo a pensar no espaço
A pensar noutro espaço
Onde eu não necessitaria deste coração de aço
Romper a carne?
Ascender?
Gritar
Chega! Chega de sofrer!
Ou serenar neste espaço que vivo a imaginar?
Serenar?
Não apenas me controlar...
... serenar
...
As batidas uma a uma lentamente
Calmamente
Um gotejar

sonia delsin 


MAESTRIA

Ele vinha com seu olhar diferente
Sim, tinha um olhar diferente sobre as coisas
Sobre as pessoas, sobre os fatos
Era um pensador?
Um idealizador?
Um sonhador?
Não, era maior
Eu o via a conversar
Falava fitando o olho do interlocutor
Não se impunha usando a persuasão
Nem convencia por pressão
Era calmo no falar
Dizia o que precisava ser dito em timbre suave, acariciador
Ele nos conquistava com suas atitudes e seu amor


sonia delsin 


NUVENS DE OUTRORA, E DE AGORA

Corriam nos céus,
corriam
Urubus sobrevoavam minha solidão
Nesta vida ouvi tanto não
Tive tanta decepção
Até entender minha missão
...
Hoje as olho
Tantos formatos diferentes
Aquela bem ali me parece uma foca
A outra um coelho
Há uma que me lembra um cavalo
Penso no galope
No passado
Numa égua em disparada
Dou risada
De mim, das lembranças
Da égua
Alazã a correr pela planície
Dá para esquecer tanta coisa boa?
Alazã em disparada
Dou outra gargalhada
...
Como é bom poder sorrir para o que guardamos!
Compreendemos o quanto amamos

sonia delsin